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Por que o coração importa tanto para a saúde renal?

Especialista explica equilíbrio vital e as relações físicas, químicas e biológicas entre esses dois importantes órgãos

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Foto: Shutterstock

A saúde renal de cães e gatos está intimamente ligada ao funcionamento adequado do coração. Esses dois órgãos essenciais não operam de forma independente, mas sim em uma intricada dança de equilíbrio e interdependência. Compreender como o coração influencia diretamente a função renal é fundamental para garantir o bem-estar e a saúde integral dos animais.

No entanto, para médicos veterinários especialistas em rins e coração, estabelecer uma comunicação eficaz pode ser o primeiro grande desafio ao lidar com essas situações. “Há um grande desafio na relação do cardiologista e do nefrologista. É preciso conversar e conversar muito. Temos que lembrar que nosso propósito é tratar o paciente e dar o melhor para ele”, aponta o médico veterinário Kaleizu Rosa, mestre em Fisiopatologia Experimental e em Fisiologia Cardiovascular, doutor em Ciências com ênfase em Cardiologia e PhD em Cardiologia Veterinária.

Durante live promovida pela Idexx Vet no mês de março para profissionais do setor, o especialista reforçou a necessidade de entender que o equilíbrio entre o coração e os rins é um tema primordial para a saúde dos animais e que é preciso abordar o assunto de forma mais precisa.

A conversa sobre a interdependência entre o coração e os rins, conforme explicado por Kaleizu, é multifacetada e complexa, envolvendo aspectos físicos, químicos e biológicos. “Tendemos a falar numa perspectiva mais simplista, que o coração é uma bomba que, por sua vez, bombeia o sangue até os rins, que são os filtros”, explica o médico veterinário e destaca que, muitas vezes, essa relação é simplificada para que tutores de animais de estimação, que podem não ter conhecimento técnico, compreendam o processo e adiram aos tratamentos propostos.

Porém, ele observa que essa definição é “simplista demais”. “O coração e os rins são ligados por vasos, por isso há uma relação física entre eles. O coração secreta substâncias químicas que vão conversar com os rins, além do (aspecto) biológico, pois quem comunica os dois é o sangue”.  Segundo o especialista, a pressão arterial é a variável hemodinâmica mais importante do sistema circulatório e essa informação é primordial para o sistema cardiovascular. “Preocupa-se muito com o débito cardíaco, com volume, mas para que haja perfusão em todos os órgãos o sangue tem que estar pressurizado”, acrescenta.

Ao abordar a anatomia renal, Kaleizu frisa a complexidade da perfusão. “Os rins são os únicos órgãos que têm dois leitos capilares em sequência, isso significa que é um vaso diminuto”, explana. Sendo assim, o sangue é direcionado através de um sistema intricado de vasos, onde ocorre a filtração e a remoção de substâncias indesejadas. “Imagine o coração bombeando contra um único tubo hidráulico que coloca uma artéria como se fosse o único tubo saindo do ventrículo esquerdo, o fluxo vai entrar nos rins pela artéria renal. Se o rim tivesse um único néfron, esse sangue teria que passar pela artéria aferente capilar glomerular que está envolto com a capsula de Bowman, que é onde vai começar a filtração”, explica.

“O que não foi filtrado vai para a arteríola eferente e, então, vem o segundo leito capilar, que são os capilares peritubulares, em sequência, para depois sair do leito renal e sair dos rins. Ao cumprir sua função de levar nutrição para os rins, ele recebe 25% do débito cardíaco, o que é um valor astronômico se considerarmos o tamanho da massa renal”, destaca Rosa.  A massa renal dos dois rins são, aproximadamente, um por cento do peso corporal total e recebem um quarto do que o coração bombeia, de acordo com o palestrante.

O adequado funcionamento do coração é essencial para garantir a nutrição e o bom desempenho dos rins, que exercem papel vital na excreção de resíduos e na regulação do equilíbrio hídrico e eletrolítico do organismo. “Se o coração não está conseguindo manter o volume, e não é só o volume, mas pressurizado, não tem como haver essa perfusão, não tem como haver esse fluxo”, explica.

 

PhD em Cardiologia Veterinária, Kaleizu Rosa (Foto: Arquivo pessoal)

 

Variações

O doutor Kaleizu também explora detalhadamente as principais doenças cardíacas que afetam os pets”, destacando a importância de entender a fisiopatologia por trás das doenças cardíacas. “Existem as doenças que levam a uma disfunção sistólica de contratilidade”. Essas doenças, segundo Rosa, afetam a capacidade do coração de bombear sangue adequadamente para os órgãos, incluindo os rins.

Ao mergulhar mais fundo na mecânica cardiovascular, o médico veterinário enfatiza a relação entre o débito cardíaco e a pressão arterial. “A pressão arterial é um produto do débito cardíaco, que é o volume vezes o grau de resistência vascular”, esclarece. Portanto, qualquer redução no débito cardíaco pode levar a uma queda na pressão arterial, afetando a perfusão de sangue para os órgãos. “Se temos uma redução do débito, por uma dificuldade de contração cardíaca, como ela tem uma relação direta com a pressão, cai a pressão. Portanto, quando uma variável se altera, as outras também vão se alterar”, evidencia.

Entre as doenças que começam com disfunção sistólica, o professor Kaleizu destaca a cardiomiopatia dilatada, uma condição conhecida em cães e gatos, embora apresentem causas diferentes. Em cães, essa condição é mais comum em raças de grande porte, como São Bernardo, Golden Retriever e Doberman. “Em cães, ela acontece basicamente por duas questões. Ou os sarcômeros vão desalinhando, por conta de algum problema genético, ou pode ter uma gordura entremeada entre esses sarcômeros, que interrompe esse processo”, enfatiza.

Por outro lado, em gatos, a cardiomiopatia dilatada é quase exclusivamente causada pela deficiência de taurina, aminoácido que participa do mecanismo do processo contrátil e entra nas mitocôndrias. Rosa salienta que, na década de 1980, descobriu-se que a adição de taurina à alimentação dos gatos controlava essa condição. No entanto, ele alerta para uma tendência preocupante: “Hoje em dia há alguns trabalhos mostrando que gatos que comem ração comercial estão apresentando cardiomiopatia dilatada. Também é uma doença que pode cursar com déficit de contratilidade”.

Além das doenças que começam com disfunção sistólica, Kaleizu também fala sobre as condições relacionadas à disfunção diastólica. “A diástole é tão importante quanto a sístole”, ressalta. Ele explica que a disfunção diastólica, portanto, leva a um processo congestivo, já que “a diástole é um momento que o coração está relaxado para receber o sangue, para ter o que bombear”.

Na insuficiência diastólica há um aumento de pressão dentro do ventrículo, conforme relata o profissional. “É o momento que a mitral e a tricúspide estão abertas, então o aumento de pressão do ventrículo reflete no aumento de pressão do átrio, que, por sua vez, não é uma câmara potente em termos de contração. Tanto que ele tem parede fina e só funciona como uma bomba de reserva”, especifica. “Aumentando a pressão dentro dele, ele distende, então se colocamos isso do ponto de vista ‘lado esquerdo e lado direito’, as repercussões serão um pouco diferentes”, acrescenta doutor Kaleizu.

O palestrante deixa claro que sempre se deve pensar em “quem está levando o sangue para o átrio direito, que são as veias cavas cranial e caudal”. Ele descreve detalhadamente que “assim começa a aumentar a pressão no átrio, e que, na contramão, vai aumentando a pressão em todas as veias do corpo, incluindo veias renais. Desse modo, dificulta para o sangue sair dos rins”.

O especialista indica ainda que a pressão de entrada deve ser alta, e a pressão de saída, baixa. “Como falo de veia, o aumento de pressão diastólica no ventrículo direito aumentou a pressão diastólica no átrio direito, na contramão, aumentou a pressão em todo o leito venoso, inclusive nas veias renais. Então esse gradiente caiu”, complementa. Segundo Rosa, esse é um número altamente expressivo, pois se pensarmos na quantidade de volume que é filtrado e no quanto é expelido pela urina, 99% é reabsorvido. “É isso que permite que os rins filtrem o sangue 60 vezes por dia. Não tem hemodiálise que consiga fazer a mesma coisa”, menciona o profissional.

 

Aferição da pressão arterial

O cardiologista veterinário destaca a relevância da avaliação da pressão arterial como um importante indicador da saúde do paciente. “A hipertensão arterial faz o sangue entrar numa pressão aumentada nos rins e vai mexer com aquele ajuste, chamado feedback túbulo glomerular, e o rim vai eliminar um pouco desse excesso de volume” reforça.

Ao citar a importância da urinálise, doutor Kaleizu Rosa enfatiza que a avaliação da pressão arterial é fundamental, principalmente por fornecer informações valiosas sobre a saúde do paciente. “Sempre pergunto aos profissionais quem afere a pressão arterial na rotina e ainda é uma estimativa baixa. Isso precisa ser divulgado, porque a aferição da pressão arterial traz muitas informações clínicas para o paciente como um todo, não somente no aspecto cardíaco, não somente no aspecto renal, mas também no endócrino, na crise hipertensiva”, ressalta.

Além disso, o especialista falou sobre questões, muitas vezes, esquecidas na prática clínica, incluindo as funções homeostáticas dos rins. “Falamos sempre em equilíbrio de volume, equilíbrio de pressão, mas se temos uma alteração no equilíbrio ácido/base – e isso também altera no coração, se temos alterações da produção de eritropoietina, terá menos produção de células vermelhas, menos produção de hemoglobina, o transporte de oxigênio fica prejudicado”, afirmou.

Ao discutir a relação entre a função renal e a entrega de oxigênio para as células, Kaleizu sublinha: “Essa entrega depende de um componente mecânico, que é o débito cardíaco e quanto de oxigênio tem no leito arterial, o conteúdo arterial de oxigênio. Eritropoietina diminui, porque a função renal diminui, pois há menos transportadores, caindo a entrega de oxigênio” descreve o médico veterinário ao ressaltar que, dessa forma, o coração será mais exigido.

O palestrante acrescenta ainda a importância da produção da vitamina D na saúde cardiovascular e renal. “A produção da vitamina D precisa ser lembrada como uma indutora de placa aterosclerótica de função endotelial, de uma série de outras coisas que também vão impactar os rins”, aconselha.

 

Diagnóstico

Durante sua análise detalhada das condições cardíacas em animais, Rosa aborda aspectos fundamentais do diagnóstico, e destaca a importância de indicadores como a proteinúria. “Outra questão que sempre coloco nos meus pacientes também é o índice de proteinúria”, disse ao ressaltar a relevância desse marcador para a avaliação da função renal e o prognóstico geral do paciente. Ele explica que as medicações impactam nesse aspecto e a proteinúria pode ter valor prognóstico mais alto do que o próprio valor da pressão arterial, tornando-se um alvo indispensável para o tratamento. “No paciente hipertenso que, via de regra, compõe a maior parte do paciente na síndrome cardiorrenal, vira uma tríade do mal. Costumo colocar num diagrama a função renal, o valor da pressão arterial e a proteinúria”, destaca o profissional.

 

Tratamento

Ao discutir o impacto das medicações no tratamento, Kaleizu considera alguns fatores importantes. Por exemplo, ele menciona o uso de inibidores da enzima conversora de angiotensina (ECA), que podem melhorar a proteinúria, se for de origem glomerular. No entanto, ele alerta que esses medicamentos podem aumentar as taxas de creatinina e SDMA, indicadores de função renal, devido ao seu impacto na filtração.

Outro medicamento comum na abordagem desses pacientes, de acordo com o médico veterinário, é a Anlodipina, um vasodilatador que melhora a pressão arterial, já que melhora a condição de vasodilatação. “Ela pode melhorar a função renal, pois o vaso dilata”, explica Kaleizu. No entanto, ele também orienta que a Anlodipina pode causar, ou piorar, uma proteinúria pré-existente, ressaltando a necessidade de uma abordagem cuidadosa e personalizada para cada paciente.

Fonte: O Presente Pet

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